As FARC reconhecem ter causado “vítimas e dor” na Colômbia

A guerrilha fala pela primeira vez em compensar os afetados e da necessidade de alcançar um "perdão coletivo"

Pablo Catacumbo se dirige à mídia. / Alejandro Ernesto (EFE)

Foi necessário que se passassem nove meses desde o início dos diálogos de paz entre o governo colombiano e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para que estas reconhecessem sua parte de responsabilidade nas milhares de vítimas deixadas por uma guerra que já dura meio século.

Depois de se negar algumas vezes a fazê-lo, ontem, na entrada do Palácio das Convenções de Havana, onde na última segunda-feira foram iniciadas as conversas de paz, a delegação da guerrilha reconheceu publicamente que seus homens provocaram “vítimas e dor” e também abriram a possibilidade de uma “reparação com total lealdade à causa da paz e da reconciliação”.

Compensar as vítimas se transformou em um dos assuntos mais espinhosos do processo de paz, exatamente pela negativa das FARC em reconhecê-las. No acordo sobre a negociação que o grupo assinou com o governo para encerrar o conflito a questão das vítimas ficou resumida em uma frase de grande significado que não foi fácil de incluir. “Ressarcir as vítimas está no centro do acordo”, afirma o documento, que é o guia que orienta as equipes negociadoras.

Contudo, vários dos negociadores da guerrilha que estão em Cuba disseram em diferentes momentos que não têm por que responder perante nenhuma vítima, já que são “lutadores populares” e que não cometiam “crimes contra o povo”.

Um relatório estima que o conflito tenha deixado mais de 200.000 mortes

Assim o fizeram desde que, em 2012, foram iniciadas as negociações em Oslo (Noruega). Iván Márquez, líder da negociação e vice-líder das FARC, também insiste que eles não são a causa, mas sim a resposta à violência do Estado e que, por isso, para discutir a questão seria preciso “abordar o terrorismo do Estado”.

Agora sua posição parece estar mais branda. O pronunciamento de ontem foi feito por um dos negociadores e líder do Bloco Ocidental da organização, Jorge Torres Victoria, também conhecido como Pablo Catatumbo, que assegurou que é necessário ressarcir as vítimas da violência; “tudo com o espírito de ressaltar a necessidade do perdão coletivo”, afirmou Catatumbo antes de entrar em uma nova sessão da décima terceira rodada de negociações.

O líder guerrilheiro reconheceu que no conflito armado colombiano “houve dureza e dor provocadas por nossos membros”, mas acrescentou que o Estado teve sua participação nessa crueldade. “O inimigo nunca foi fácil, não se sujeitou a normas de combate”, denunciou.

No final de julho, o presidente Juan Manuel Santos reconheceu perante a Corte Constitucional a responsabilidade que o Estado também tinha por violações aos direitos humanos e infrações do direito internacional humanitário relacionadas com o conflito armado. “Em alguns casos por omissão, em outros por ação direta de alguns agentes do Estado”, disse o mandatário diante de uma audiência cheia de jornalistas à qual compareceram para defender o polêmico Marco Jurídico para a Paz, uma reforma constitucional que estabelece uma série de instrumentos jurídicos de justiça transitória pensados para quando o conflito for superado. “Para o governo, era perfeitamente claro que o ponto de partida de qualquer solução para o conflito fosse o reconhecimento e o ressarcimento das vítimas”, explicou Santos.

Na declaração de ontem, as FARC também propuseram criar uma comissão de especialistas nacionais e internacionais para estudar a origem do conflito armado e suas consequências. Isso quando há menos de um mês se tornou conhecido um extenso e arrasador relatório do Centro Nacional de Memória Histórica que concluiu que o conflito causou cerca de 220.000 mortes desde 1958 e que a maioria das vítimas, 176.000, eram civis. Segundo o Memória Histórica, para cada combatente falecido foram mortos quatro civis, e de cada 10 colombianos mortos nos últimos 54 anos, três perderam a vida por causa da guerra.

Foi exatamente a pedido do Memória Histórica que Santos assumiu a responsabilidade do Estado em um conflito cujas cifras revelam uma guerra feroz. Na Colômbia, estima-se que haja 25.000 desaparecidos, 6.000 crianças foram recrutadas, 10.000 pessoas foram amputadas por minas terrestres, e quase cinco milhões foram despejadas de seus lares.

 

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