O papa Francisco considera receber no Brasil o grande teólogo da libertação

Segundo Leonardo Boff, Francisco disse que pretende recebê-lo, mas só depois de terminar a reforma da Cúria A teologia de Francisco é a de Amós, e não a de Marx Os teólogos da libertação apoiam o início do papado de Francisco

Leonardo Boff, en una imagen de 2006.
Leonardo Boff, en una imagen de 2006.R. Gutiérrez

Ao chegar ao Brasil, o papa pediu um exemplar do livro recém publicado do teólogo ”rebelde” Leonardo Boff, intitulado Francisco de Assis e Francisco de Roma, em que analisa a ruptura que este papa está fazendo na Igreja, com a volta às origens do cristianismo.

“Entreguei o libro ao arcebispo do Rio, monsenhor Orani Tempesta, e ele o entregou ao Papa”, disse-me Boff, que estava de saída para o aeroporto, a caminho de encontros com mais de mil jovens em Santa Catarina e em São Paulo.

Sobre a possibilidade de que Francisco queira se encontrar com o teólogo brasileiro que Bento XVI, o seu antecessor, condenara ao silêncio quando era prefeito da Congregação da Fé, Boff explicou: “Não pude cancelar um compromisso assumido há muito tempo com jovens com quem vou conversar. Por isso, só estarei no Rio no sábado, último dia da visita do Papa.”

Porém, Boff contou o seguinte: “Uma amiga do papa do tempo em que era arcebispo de Buenos Aires e com quem ele fala por telefone toda semana, me disse que lhe perguntou se pretendia me receber e a resposta foi ‘Sim, mas só depois de concluir a reforma da Cúria’.”

Neste caso, o encontro seria oficial, o que não impede que Francisco se encontre no Rio com o teólogo franciscano, um defensor ferrenho da revolução que ele está fazendo na Igreja e que Boff chama de “ruptura”.

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Boff confirmou o que havia declarado ao jornal O Globo: Francisco pode reabilitar os mais de 500 teólogos condenados pela Igreja quando foi comandada por Ratzinger e Wojtyla, mas ele acredita que isso não ocorrerá “enquanto Bento XVI viver”.

Boff afirma que o papa Francisco incorporou a ideia mais primitiva da Teologia da Libertação ao seu programa: “Lembre-se, Juan, que o teólogo Carlos Scanone, que lançou esta teologia na Argentina, foi professor de Bergoglio quando ensinava teologia num colégio nos arredores de Buenos Aires.”

Scanone elaborou uma teologia da libertação ligada à “teologia popular”, explica Boff, que de certo modo difere da que foi desenvolvida depois pela corrente inspirada na tese do marxismo, que pretende resgatar os pobres e excluídos mediante mudanças nas estruturas políticas. Segundo a teologia de Scanone, é o povo quem deve se libertar das estruturas de poder que o escravizam.

“Nesse sentido, podemos dizer que Francisco é um teólogo da libertação elaborada por Scanone, que de certo modo sustentou algumas atitudes do peronismo”, acrescentou Boff.

Sobre a possibilidade de que, seguindo a doutrina de O Príncipe, de Maquiavel, a Cúria recorra a qualquer meio para se manter no poder e tente boicotar a renovação de Francisco, Boff afirma que talvez ela tente fazê-lo. Porém, ele recorda que, além de ter escolhido o espírito simples de Francisco de Assis, este Papa “também é jesuíta”. Pergunto-lhe o que quer dizer e Boff responde sorrindo: “Significa que também é filho de Inácio de Loyola, o grande estrategista da Companhia de Jesus, que resistiu até hoje a todos os vendavais lançados não só pela Cúria como por mais de um Papa, que foi dissolvida e ressuscitou, sempre com mais força”. Antes perseguida pela Igreja de Roma, a Companhia hoje tem um papa todo seu. Francisco tem um bom respaldo.

Tradução: Cristina Cavalcanti

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